sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Mundo heterogêneo

Foto: Kristiano.Flickr.2007

Achei um artigo interessante do jornalista e professor Manoel Dutra. O material foi retirado do blog do Jeso Carneiro, que aliás, possui um imenso arquivo sobre questões da Amazônia. Leiam abaixo a opinião de um especilista em jornalismo ambiental:

"A convite de um grupo de estudantes de jornalismo estive, há alguns meses, numa faculdade do interior de São Paulo para falar sobre 'como se faz jornalismo na Amazônia'.

Expliquei o óbvio, que o jornalismo tem regras universais e suas práticas devem se realizar em qualquer ambiente, em qualquer cultura. A principal regra é a fidelidade do relato e da interpretação aos fatos.

Na Amazônia, o profissional da informação encontrará situações de relativa semelhança com qualquer outro meio urbano, igualmente como terá que vasculhar a imensidão dos rios e das florestas, se desejar efetivamente testemunhar e documentar aquilo que o senso comum chama, de modo difuso, de Amazônia, um mundo heterogêneo seja do ponto de vista de sua conformação física, seja nos aspectos sociais, políticos e culturais.

No encontro com os jovens paulistas, a primeira surpresa foi o esmerado preparo da pauta, com pesquisas prévias sobre o tema do encontro, tal como faz, ou deve fazer, qualquer jornalista. A curiosidade recaía preferencialmente sobre desmatamento, que naqueles dias preenchia os noticiários, e sobre as condições de trabalho dos jornalistas desta região.

Em certo momento, um dos futuros jornalistas sugeriu o desejo de vir trabalhar na Amazônia, para denunciar a irresponsabilidade social de aventureiros que se apresentam como empresários, ao mesmo tempo revelando a ação de empresários que, usufruindo dos bens da floresta, demonstram algum compromisso com o futuro das próximas gerações.

Em resposta, aplaudi o desejo, afinal cada um tem o direito de escolher onde trabalhar neste Brasilzão de tantas realidades admiráveis e realidades também extemporâneas. Porém, apresentei-lhes uma outra sugestão: que tal vocês, antes de decidirem fazer jornalismo na Amazônia, ainda como estudantes pautassem uma ou mais de uma reportagem para o jornal-laboratório da faculdade, tendo como motivo imediato a veemência dos noticiários daqueles dias, circunstância aliada ao fato de que é aqui, em S. Paulo, que se concentra o maior parque industrial do país, com milhares de empresas utilizando madeira retirada da Amazônia.

Disse-lhes que poderiam investigar a origem dessa madeira, utilizando todos os meios e o talento de que dispõe um jornalista preocupado em revelar a verdade, para mostrar quais indústrias, grandes ou pequenas, são capazes de exibir os documentos comprobatórios da legalidade da matéria-prima que utilizam. E, em caso positivo, investigar a autenticidade dos documentos.

Com isso desejei mostrar que a Amazônia é um 'caso' de todos os brasileiros e que as raízes da devastação acham-se onde está o capital, ou seja, o Estado de São Paulo e outros centros industriais do Brasil e do exterior, sem eximir a nós, amazônidas, da nossa parcela de responsabilidade. Tive, porém, o cuidado de não me apresentar como dono da verdade, como têm feito alguns jornalistas de 'grandes' jornais brasileiros que têm sido convidados a vir a Belém 'ensinar' como se faz jornalismo na Amazônia. A questão não é dos convidados, mas de quem os convida."

Nenhum comentário: