segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Na marra!


Quem leu a coluna 'Repórter 70', do jornal O Liberal, desta segunda-feira (21), também deve ter estranhado a seguinte nota:

"A decisão da prefeitura de retirar os camelôs da Presidente Vargas é definitiva. Há mais de 30 anos, as calçadas da avenida estavam ocupadas. O prefeito Duciomar Costa passou o final de semana tratando do problema. Reuniu-se, inclusive, com representantes dos camelôs. Muitos aceitaram ir para o terreno do Basa. Resolvida a questão da Presidente Vargas, a prefeitura vai liberar as calçadas da Padre Eutíquio, próximo ao Iguatemi, e do início da BR, ao lado do Castanheira."

Êpa... Mas, a decisão não foi da prefeitura, e sim, do
desembargador Souza Prudente, da Justiça Federal de Brasília, tanto que a ação foi por conta da Polícia Federal. E como assim, "muitos ambulantes aceitaram ir para o terreno do Basa"? E a manifestação feita hoje? Se a proposta do Prefeito foi aceita, por que havia, cerca de 400 ambulantes, nas principais ruas de Belém?

E pelo que percebi, essa situação está longe de ser resolvida, afinal você sabe quanto ganha um ambulante, em média? Entre R$ 2 mil à R$ 3 mil. Pode ser difícil de acreditar, mas se você for considerar que eles não pagam impostos, a rotatividade na Av. Presidente Vargas - devido às paradas de ônibus e o Comércio - e a carga horária de trabalho, perceberá que não é uma hipótese a se descartar. Por isso, acho difícil eles desistirem de um lugar tão lucrativo e aceitarem a remanejação para um local fechado.

Bem, uma nota no mínimo suspeita, eu diria...

sábado, 19 de janeiro de 2008

Homo videns


Não há necessidade de uma análise muito aprofundada das grades de programação das principais emissoras do país para chegar-se à constatação de que se trata de um construto pobre, demonstrativo da carência cultural de uma dada formação histórica, uma deterioração, mesmo tratando-se de empresas midiáticas, que tradicionalmente produzem e distribuem produtos simbólicos nos marcos das dinâmicas de rentabilização, de onde decorrem todas as estratégias.

As emissoras direcionam sua programação diurna preferencialmente para as faixas etárias adulta e adolescente, explorando programas de culinária e discussões superficiais sobre a vida de artistas e o desenrolar dos acontecimentos novelescos.

A grade de programação brasileira é baseada na Rede Globo, que serve como parâmetro para as outras emissoras, isto é, programas que atingem sucesso na líder de audiência tornam-se suporte do conteúdo dos canais concorrentes. São atrações que falam da Globo, buscando contaminar-se simbolicamente por seu êxito.

A falta de criatividade dos produtores acaba impedindo o avanço cultural da sociedade, visto que muitos espectadores informam-se basicamente através da televisão. Esse processo decadente, comparado à sua grande potencialidade, vem ocorrendo há vários anos, tendo seu auge em momentos, no SBT, como o Domingo Legal, com sua banheira erótica, e o Aqui Agora, onde a violência e o bizarro se destacavam.

Já a segunda metade dos anos 90 foi assinalado por produtos como o H, com Feiticeira e Tiazinha, que, na Bandeirantes, elevou ao máximo a erotização e a exploração da mulher. Da mesma forma, ontem e cada vez mais hoje a Globo faz do sexo um importante fator de captação de público, em suas novelas.

Modelos desconstruídos

Os radiodifusores costumam dizer que o povo não assistiria a programas mais complexos, porque, na verdade, gosta de ver baixaria. Mas será? É possível produzir telenovelas inovadoras, de temáticas diferentes e atraentes, como, no passado, foi Pantanal, sucesso absoluto na antiga TV Manchete, que, além de mostrar um Brasil desconhecido pela maioria, trazia nos personagens a pureza e a ingenuidade de uma vida simples.

A assistência a um único capítulo de novela já permite a clara distinção entre o bem e o mal, possibilitando a projeção do futuro das personagens e a previsibilidade da estória, onde o malfeitor e o anti-herói reinam absolutos durante meses, só perdendo no final.

Já os programas de auditório, que preenchem as tardes do fim de semana, visam a atender a todos os públicos, misturando provas para pessoas humildes, com necessidades financeiras, e exposição de mulheres em trajes sumários, dentre outros elementos de fácil assimilação. Esse talvez seja o grande problema da produção televisiva: faltam novidades e, principalmente, ousadia; no máximo, há estréias de programas com formatos importados do exterior.

Porém, não se pode esquecer que ainda existem algumas inovações, como as minisséries que buscam retratar as histórias do Brasil e de suas unidades federativas. No entanto, essas produções não atingem uma grande audiência, engrossando o discurso daqueles que dizem que o povo prefere baixaria.

Ocorre que, além de usualmente serem veiculadas em horário tardio, algumas abusam de seu caráter experimental, como a minissérie A Pedra do Reino, que acabou gerando confusão no telespectador. Se há um hábito de exibição e recepção de produtos de fácil entendimento, os modelos desconstruídos devem ser transmitidos paulatinamente, em pequenas doses, por não estar estabelecida tal tendência de consumo.

Bons projetos e exemplos

O Altas Horas, da Rede Globo, por exemplo, é atualmente o único programa da TV aberta, de alcance nacional, voltado especificamente para o jovem que investe em um formato simples e contributivo, tratando os assuntos de forma clara e sem apelação, o que, de um modo geral, está cada vez mais raro. Em regra, as emissoras buscam atender o jovem com produções ficcionais norte-americanas e partidas de futebol, alienando-o mais ainda, como se a vida fosse só isso.

Entretanto, os canais deveriam investir mais em espaços audiovisuais diferenciados, representantes da diversidade de identidades do planeta e, especialmente, na divulgação do cinema, da música e das demais formas artísticas brasileiras, trabalhando sua maior riqueza: a diversidade. Isso poderia estimular e inspirar a produção de novos bens culturais, com características próprias, ao mesmo tempo em que formaria receptores para realizações mais exclusivas.

No quadro televisual de hoje, não há lugar para a apresentação de bons líderes e exemplos de conduta. Infelizmente, as redes têm privilegiado a tragédia e o banditismo (intencionalmente), deixando de discutir os problemas estruturais do país, os caminhos alternativos possíveis e as iniciativas comprometidas com a mudança efetiva. O resultado disso, junto à população, tem sido a omissão e o descaso com as questões políticas do Brasil.

O discurso de que a televisão é um retrato do país é simplista, pois ela potencializa as ações que pretende iluminar, como, por exemplo, o erotismo exacerbado, estimulado nas telenovelas, shows de auditório e publicidade. Buscar a justiça deveria ser a missão da TV, já que, ao atingir todas as classes, pode exercer um papel preponderante na definição de uma nova sociedade.

O Brasil clama por bons projetos e exemplos. A televisão, como serviço público, mesmo quando prestado por empreendimentos privados, deveria deter-se nisso para preencher uma ferida que está aberta e sangrando faz muito tempo.

Por Valério Cruz Brittos e Ary Nelson da Silva Júnior/Observatório da Imprensa

Cotas: a favor ou contra?

"A Justiça Federal no Paraná concedeu uma decisão contra a política de cotas da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A autora do processo é a estudante Elis Wendpap Ceccatto, 20 anos, que obteve nota superior a de vestibulandos cotistas, mas não pôde ser matriculada no curso de direito da instituição.

Pela sentença da juíza federal substituta Giovanna Mayer, a UFPR deverá realizar a matrícula da estudante, “devendo acolhê-la como aluna regular, sem quaisquer restrições pedagógicas ou acadêmicas”. Da decisão ainda cabem recursos.

Elis entrou com o processo em 2005 e hoje já está no quarto ano de direito do Centro Universitário Curitiba (Unicuritiba), uma instituição particular. Com a demora no processo, a estudante já não sabe se poderá cursar a instituição pública. “Pode ser que a decisão final saia depois de eu me formar. Mas o importante é manter a discussão sobre as cotas. Elas não resolveram nada e foram implantadas de imediato, de forma impulsiva”, diz.

Sua tia e advogada Rosane Gil Kolotelo Wendapap explica que o principal argumento da ação é o de que não cabe à universidade implantar a política de cotas. “A universidade não pode legislar. Com as cotas ela acaba criando direitos e obrigações, que são competência do Congresso Nacional”, diz.

Mesmo que não possa obter o direito à vaga na federal, Rosane explica que vai levar o processo adiante: “Esse assunto é de interesse coletivo. O objetivo do processo é mostrar para a sociedade que ela também pode controlar a constitucionalidade de uma lei”.

No processo, todos os cotistas que passaram no vestibular 2005 foram acionados como réus e citados pela Justiça. Daí o tempo para o andamento da ação acabou se prolongando e o desfecho em primeira instância demorou quase três anos para ocorrer.

Pela decisão da Justiça, a universidade também não poderá excluir candidatos cotistas para dar a vaga à estudante. “Em relação ao aluno cotista que será afetado pela decisão, entendo que esta é uma questão administrativa, que deverá ser enfrentada dentro da própria UFPR, vez que a manutenção do aluno ocasionará o aumento de vagas. Ademais, temerário retirar a vaga de um aluno que já está há mais de dois anos assistindo às aulas”, diz a juíza na sentença.

A instituição pode recorrer e levar o caso à segunda instância, na qual já obteve decisões favoráveis.

De acordo com o edital do vestibular, das vagas oferecidas para os cursos da UFPR, 20% são de inclusão racial, disponibilizadas para estudantes de cor preta ou parda. Outros 20% das vagas são reservadas para inclusão social, para estudantes que tenham realizado todo o ensino fundamental e médio em escola pública."

Fonte: G1

***Admito, que ainda não consegui formar uma opinião concreta sobre a questão das cotas em universidades, mas até então, defendo que o governo deveria se preocupar em melhorar a educação fundamental e média, ao invéns de facilitar a entrada no ensino superior. Até mesmo, porque essa atitude não ajudaria a criar, na maioria das vezes, profissionais desprerados para o mercado de trabalho? Alguém tem outra opinião?

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Uma pororoca de escândalos


"Catorze novos governadores assumiram o cargo em 2007. Muitos ganharam o noticiário nacional ao implementar boas medidas administrativas. A governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, foi uma das que mais marcaram presença na imprensa. Mas por outros motivos.

Não houve um mês sequer em que ela não figurasse em algum escândalo – de maior ou menor magnitude. Ao tomar posse, ela empregou os irmãos e um primo no governo. Flagrada, teve de demiti-los. Depois, nomeou sua cabeleireira como assessora.

Ana Júlia usou um jatinho do estado para ir à formatura do filho em Minas Gerais. Descansou na Semana Santa com os assessores mais chegados na casa de praia do governo e pagou diárias de trabalho para todo mundo.

Incansável, beneficiou seu namorado, presidente do aeroclube do Pará, com um contrato de 3,7 milhões de reais para treinamento de pilotos de helicóptero. Gastaria três vezes menos se treinasse todos em São Paulo.

Suas estripulias deveriam ficar apenas no folclore que tanto preza – a governadora adora saracotear ao som do carimbó. Mas, em novembro, o país estarrecido tomou conhecimento de que as coisas no seu estado andam piores do que se imaginava.

Descobriu-se que uma menina de 15 anos havia sido presa com trinta homens em uma delegacia do interior. Durante 24 dias, ela foi estuprada e torturada. Depois que o caso veio à tona, soube-se que, no Pará, tão comum quanto o carimbó é prender menores e trancafiar mulheres junto com homens.

Enquanto Ana Júlia requebra, os paraenses dançam em mais de um sentido."

***Espaço de "retrospectiva" dado pela Revista Veja, de 29 de dezembro, ao nosso Estado.