"da Folha Online
Para a tribo Tupi-guarani, "nheengatu" significa fala boa, fácil de ser compreendida. Por isso, este é um espaço para mostrar a minha e a sua insatisfação com os caminhos que a sociedade está tomando, da melhor maneira possível. Aqui, o que é notícia e o que teima em se esconder, será exposto e discutido, e é claro, através de "nambiquara", ou seja, uma fala inteligente. Foto: Roberto Jayme
Foto: Kristiano.Flickr.2007Achei um artigo interessante do jornalista e professor Manoel Dutra. O material foi retirado do blog do Jeso Carneiro, que aliás, possui um imenso arquivo sobre questões da Amazônia. Leiam abaixo a opinião de um especilista em jornalismo ambiental:
"A convite de um grupo de estudantes de jornalismo estive, há alguns meses, numa faculdade do interior de São Paulo para falar sobre 'como se faz jornalismo na Amazônia'.Expliquei o óbvio, que o jornalismo tem regras universais e suas práticas devem se realizar em qualquer ambiente, em qualquer cultura. A principal regra é a fidelidade do relato e da interpretação aos fatos.
Na Amazônia, o profissional da informação encontrará situações de relativa semelhança com qualquer outro meio urbano, igualmente como terá que vasculhar a imensidão dos rios e das florestas, se desejar efetivamente testemunhar e documentar aquilo que o senso comum chama, de modo difuso, de Amazônia, um mundo heterogêneo seja do ponto de vista de sua conformação física, seja nos aspectos sociais, políticos e culturais.
No encontro com os jovens paulistas, a primeira surpresa foi o esmerado preparo da pauta, com pesquisas prévias sobre o tema do encontro, tal como faz, ou deve fazer, qualquer jornalista. A curiosidade recaía preferencialmente sobre desmatamento, que naqueles dias preenchia os noticiários, e sobre as condições de trabalho dos jornalistas desta região.
Em certo momento, um dos futuros jornalistas sugeriu o desejo de vir trabalhar na Amazônia, para denunciar a irresponsabilidade social de aventureiros que se apresentam como empresários, ao mesmo tempo revelando a ação de empresários que, usufruindo dos bens da floresta, demonstram algum compromisso com o futuro das próximas gerações.
Em resposta, aplaudi o desejo, afinal cada um tem o direito de escolher onde trabalhar neste Brasilzão de tantas realidades admiráveis e realidades também extemporâneas. Porém, apresentei-lhes uma outra sugestão: que tal vocês, antes de decidirem fazer jornalismo na Amazônia, ainda como estudantes pautassem uma ou mais de uma reportagem para o jornal-laboratório da faculdade, tendo como motivo imediato a veemência dos noticiários daqueles dias, circunstância aliada ao fato de que é aqui, em S. Paulo, que se concentra o maior parque industrial do país, com milhares de empresas utilizando madeira retirada da Amazônia.
Disse-lhes que poderiam investigar a origem dessa madeira, utilizando todos os meios e o talento de que dispõe um jornalista preocupado em revelar a verdade, para mostrar quais indústrias, grandes ou pequenas, são capazes de exibir os documentos comprobatórios da legalidade da matéria-prima que utilizam. E, em caso positivo, investigar a autenticidade dos documentos.
Com isso desejei mostrar que a Amazônia é um 'caso' de todos os brasileiros e que as raízes da devastação acham-se onde está o capital, ou seja, o Estado de São Paulo e outros centros industriais do Brasil e do exterior, sem eximir a nós, amazônidas, da nossa parcela de responsabilidade. Tive, porém, o cuidado de não me apresentar como dono da verdade, como têm feito alguns jornalistas de 'grandes' jornais brasileiros que têm sido convidados a vir a Belém 'ensinar' como se faz jornalismo na Amazônia. A questão não é dos convidados, mas de quem os convida."
Quando os colonizadores portugueses chegaram ao Brasil, há mais de 500 anos, e fizeram um contato com os povos indígenas que aqui habitavam, mas não prestaram atenção de que estavam diante de uma sociedade auto-suficiente.
Muito pelo contrário, trataram de deixar claro, que nativos não possuíam uma cultura melhor que a deles. Afinal, eles eram desenvolvidos, com todas as suas armas e doenças européias. Isso é Etnocentrismo.
E casos como esses, ainda podem ser vistos, hoje em dia, como por exemplo, na absolvição do ex-apresentador do SBT, João Rodrigues, que visivelmente, incitou a discriminação indígena, durante o programa SBT Verdade, mas não o suficiente para ser considerado racismo pelo Supremo Tribunal Federal.
Vamos ver... Ele usou frases, como:
'Os índios tomaram conta do aeroporto, os aviões não podem pousar porque, quando pousam, a flecha come'
'A indiada meio que dificulta o processo lá, né, trabalhar muito pouco, não são chegados ao serviço. (...) O índio tem terra, mas não planta, é mais fácil roubar, tomar de alguém que plantou e se dizer dono, depois que colhe abandona a fazenda e vão invadir outra'.
Se isso não é racismo, vamos reavaliar o caso de todas as pessoas que foram presas por discriminação racial no país.
No site do Portal Imprensa diz que João foi denunciado "por infrações à lei de imprensa e condenado por um artigo conhecico como Lei Caó - que considera crime praticar, incitar ou induzir à discriminação por intermédio dos meios de comunicação - Rodrigues foi condenado a dois anos e quatro meses de reclusão em regime aberto. Segundo a Coordenadoria de Editoria e Imprensa do STJ, apesar de o crime de racismo ser imprescritível, o acusado teve a prisão substituída por penas restritivas de direito, além de pagar indenização de R$ 20 mil por danos morais."
Pouco. Casos como esses merecem uma atenção especial, pois contribuem para destruir a imagem do índio no país. A televisão tem um alcance imprenssionante. Dar declarações como estas é algo muito grave. O certo é que, cabe a nós tentar mudar essa falta de interesse e respeito pela cultura indígena, quase dizimada pelos "descobridores".
Como a questão das terras da Reserva Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, voltou a estar em evidência, devido ao julgamento no Supremo Tribunal Federal, mostro um artigo do sociólogo Tiberio Alloggio, para entender bem esta questão:
"Apesar da tentativa desesperada do ministro Marco Aurélio Mello de tumultuar a sessão do Supremo para atrasar mais uma vez a decisão sobre a Reserva Indígena Raposa Serra do Sol, a maioria dos ministros do STF, reconhecendo a legislação estabelecida, resolveram aprovar a demarcação contínua da Reserva na sua íntegra.
Isso leva à automática retirada dos 5 arrozeiros e 'outros grileiros' que se instalaram dentro da reserva, com indenizações variadas, enquanto a maior parte desses 'outros' não terá direito a qualquer indenização, pois invadiram a área depois de demarcada.
Caberá portanto aos índios dar continuidade à produção de arroz, o que não deverá ser difícil, uma vez que muitos deles já trabalham nessa produção.
Esta solução desagrada tanto aos arrozeiros que terão de deixar as áreas que ocuparam, quanto ao governo estadual que poderá ter perda de arrecadação. Mas também desagrada os antropólogos que, em nome da tradição, queriam na reserva a instalação do estado de primarismo
Esses antropólogos questionam a integração dos índios ao sistema de vida moderno, pois segundo eles, ofenderia a sua cultura, propondo a manutenção de reservas do tipo 'Jardim Antropológico', onde o índio possa ser observado pobre e de tanga, como objeto de curiosidade, e estudado como uma figura folclórica.
A decisão do Supremo implica também a não sobreposição dos direitos das povos indígenas às leis nacionais, imputando ao Índios a obrigação de respeitar as leis ambientais e o direito das instituições nacionais, como as Forças Armadas, de circular sem necessidade de autorização pela reserva.
As terras da reserva continuam sendo da União e os Índios tem o usufruto sobre a produção do solo, mas não sobre o subsolo que tem legislação específica que está acima dos direitos atribuídos aos índios.
Uma resposta clara para os setores com visão atrasada e paranóica, que vêm nas ONGs uma ponta de lança do interesse internacional. Considerando que uma das maiores mineradoras mundiais é brasileira, por que a Vale usaria ONGs estrangeiras para espionar a existência de recursos minerais?
Com essa decisão do Supremo, os Índios Macuxi, que já dominam a pequena pecuária, terão agora mais uma excelente oportunidade para gerar trabalho e renda, produzindo arroz e, por estar numa grande área de cerrado, sem necessidade de desflorestar. Não apenas para suprir à suas necessidades, mas para o atendimento da população do Estado e da Amazônia, o que, segundo os puristas do 'Jardim Antropológico', contraria a sua cultura tradicional.
Poderão passar a operar como patrões e/ou cooperados, incorporando tecnologias modernas, as mesmas que os Macuxi já estão operando como empregados dos arrozeiros, o que mais uma vez, irá contrariar os antropólogos, pois a cultura tradicional nunca utilizou equipamentos mecanizados.
Ocorre que todos eles já usam celular, televisão e eletrodomésticos, além de carros e motos. Mas como comprar esses produtos se não tiver dinheiro decorrente de venda de seus excedentes? Será que conseguem isso apenas com a troca dos seus instrumentos 'exóticos para os brancos'?
Enfim, os votos majoritários do STF dizem que a demarcação contínua é constitucional, devendo ser mantida e respeitada.
Que a propriedade das terras é da União, com usufruto dos índios, mas que o direito dos índios não está acima ao quadro legislativo nacional.
Que os índios, como todo os cidadão do Brasil, estarão também sujeitos à legislação ambiental, eles são índios, mas são brasileiros como todos os demais.
Acabando uma vez por todas com essa ilusão de 'nação indígena'. "
***retirado do blog do Jeso