sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Mensagem permanente
Na guerra das Malvinas, era o mar revolto, escuro e frio. A cada manhã temíamos pelas imagens que os jornais trariam. Agora, são corpos empilhados, crianças. Algumas imagens não são novas. A internet antecipa o horror da manhã seguinte. Na guerra do Líbano, tínhamos muito o que fazer. Retirar os brasileiros, às vezes por caminhos mais longos, ditados pelo controle militar de Israel.
Aprendemos algo que poderá ser útil na Bolívia ou no Paraguai, onde há tantos brasileiros na berlinda. No momento do choque Israel Hizbollah, fizemos o trabalho de sempre: manifestações no Saara, bairro comercial do Rio, com árabes e judeus irmanados. É nossa mensagem permanente. No Brasil, é possível a coexistência. As coisas estão mais difíceis. Há mais palpites do que foguetes e bombas.
O Brasil não pode se omitir. Nem superestimar suas chances de intervenção. Não há solução militar para o conflito. Entregues a si próprios, os adversários não encontrarão o caminho da paz. Depois do Líbano, muitos países baniram a bomba cacho, a bomba de fragmentação. Ela, às vezes, não explode e parece um brinquedo: atração fatal para as crianças. Apesar de nossos esforços, o Brasil se recusou afirmar o acordo.Insisto nessas pequenas lições de casa: retirada de brasileiros, banir a bomba cacho.
É uma tática diante de tarefas gigantescas: começar pelo que está ao nosso alcance. Mesmo Obama sentiu como é difícil. Em Ashkelon, reconheceu o direito de defesa diante dos ataques do Hamas. Agora está preocupado com o número de mortos. Não se trata se classificar a reação como desproporcional. Ela conduz ou não a algum resultado produtivo? Tantas dúvidas, tantas mortes. Diante do Oriente Médio, só Beckett: não podemos continuar; continuamos.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Um verdadeiro contracenso

Foto: Laura Sayalero/Panoramio
Mesmo com um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 169,3 bilhões, em 2005, o equivalente a 7,88% do PIB brasileiro, a Amazônia coleciona indicadores sociais vergonhosos. Eles se situam quase sempre abaixo da média nacional.
Por exemplo, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – indicador de qualidade de vida que considera os indicadores de educação (alfabetização e taxa de matrícula); longevidade (expectativa de vida ao nascer) e renda (PIB per capita) – de oito dos nove estados da região é inferior ao IDH nacional (0,757). A única exceção é Mato Grosso, maior produtor de soja, cujo IDH atinge 0,773.
As condições de saneamento são as mais precárias possíveis. Dados do IBGE que, na Amazônia, somente os dados de Roraima, e referentes apenas aos domicílios urbanos, se aproxima da média nacional em termos de percentagem de domicílios conectados à rede de abastecimento de água e à rede de esgoto ou à fossa séptica.
Um verdadeiro contrasenso. É na Amazônia onde se concentram cerca de 20% de toda a água doce superficial do planeta. Quanto à coleta de lixo, o Amapá é o único estado cujos serviços se situam acima da média nacional.
O mercado de trabalho é outra tragédia. As estatísticas do IBGE indicam que, em 2006, todos os estados da Amazônia apresentaram patamares inferiores à média nacional de trabalhadores com carteira de trabalho assinada (31,73%). Na Amazônia, a média foi de apenas 18,35%.
Trabalho escravo - Ali observa um predomínio das relações informais de trabalho. E em pleno século XXI centenas de amazônidas ainda se submetem à sobrevivência do aviamento tradicional e outros milhares são submetidos a formas de trabalho análogas à escravidão.
Para se ter uma idéia, nos primeiros sete anos deste novo século as equipes de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego libertaram dessa condição degradante 17.507 trabalhadores em quase todos os Estados da região.
As maiores incidências de trabalho escravo foram detectadas no Pará, em Mato Grosso, no Maranhão e no Tocantins. Coube, entretanto, ao Pará o vergonhoso título de campeão nacional de casos de trabalho escravo.
Fonte: Agência Amazônia
A realidade agrícola na Amazônia
Por Leonardo Sakamoto
da ONG Repórter Brasil
"Cerqueiros perfuram o chão, plantando mourões e passando arame por quilômetros a fio sob o sol forte da Amazônia. O serviço é pesado: dependendo do relevo, a cabeça arde por dias até que se complete um quilômetro de cerca. O pequeno açude, turvo e sujo, serve para matar a sede, cozinhar e tomar banho.
Um perigo, pois a pele fica impregnada com o veneno borrifado para tratar o pasto. Dessa forma, a terra vai se dividindo – não entre os cerqueiros, que continuarão sonhando com o dia em que plantarão para si, mas em grandes pastos para os bois. Dentre eles, olhos claros e pele queimada, Jonas*, de 14 anos.
Analfabeto, conta que mora em uma favela na cidade com a família adotiva e vai ao campo para ganhar dinheiro. Foi dado de presente pela mãe aos três anos de idade e trabalha desde os 12 para poder comprar suas roupas, calçados, fortificantes e remédios – afinal de contas, já pegou uma dengue e cinco malárias.
Com o que ganha no serviço, também paga sorvetes e lanches para ele e seus amigos. E só. Segundo Jonas, a adolescência não é tão divertida assim: “brincadeira lá é muito pouca.”
Os direitos dos trabalhadores rurais freqüentemente são ignorados na chamada “fronteira agrícola”, onde a floresta amazônica perde espaço a cada dia para grandes fazendas. Péssimos alojamentos e alimentação, atraso ou não pagamento de salários e até privação de liberdade sob ameaça de morte acontecem com freqüência na região. Homens se tornam escravos do dia para a noite.
Para combater isso, grupos móveis de fiscalização do governo federal realizam vistorias de surpresa, aplicando multas e resgatando pessoas quando são constatadas irregularidades. Em um dezembro passado, uma dessas equipes encontrou Jonas e outros cerqueiros vivendo sob condições degradantes em uma fazenda, em Eldorado dos Carajás, Pará.
A lei é bem clara – nessa idade, permite ao jovem apenas a condição de aprendiz, em uma escola destinada a esse fim. O trabalho que ele realizava só seria permitido a partir de 18 anos e, ainda assim, sem as condições insalubres a que estavam expostos os cerqueiros.
Seu padrasto era um dos gatos da fazenda. Gato é como são chamados os contratadores de serviços, que arregimentam pessoas e fazem a ponte entre o empregador e os peões. Porém, isso não lhe garantiu nenhum tratamento especial: teve que descontar do salário a bota que usa para trabalhar.
O padrasto diz que não considera a venda do calçado para o próprio filho errado e justifica: “como vou sustentar a minha mulher?”
O alojamento que Jonas dividia com os outros era feito de algumas toras fincadas no chão, um pouco de palha e uma lona cobrindo tudo. O sol transformava a casa improvisada em forno, encurtando, assim, a hora do almoço. “Quando vocês chegaram a gente tinha acabado de sair. Não agüentamo a quentura da lona”, desabafa.
Redes fazem o papel de camas, penduradas aqui e ali para embalar, entre um dia e outro de trabalho, os sonhos das pessoas. O de Jonas, como vários outros rapazes da sua idade, é ser jogador de futebol.
Presença garantida nos times dos mais velhos, participa de jogos e campeonatos quando eles acontecem. Quer ser profissional, mas apesar de gostar dos times do Rio de Janeiro e de São Paulo, prefere ficar lá mesmo no Pará – quem, algum dia, vestindo as camisas do Paysandu ou do Remo.
Por nunca ter ganho na vida um presente de aniversário, não esperava que recebesse algo no Natal, mas pediria uma bola se Papai Noel resolvesse aparecer.
Centenas de crianças e jovens no Brasil abandonam a escola e trabalham desde cedo para ajudar as finanças em casa ou mesmo se sustentar. Muitas estão sujeitas a condições degradantes, como Jonas. Perdem dedos nas máquinas de apurar fibras de sisal, queimam braços e pernas nos fornos de carvoarias, catam latinhas de alumínio nos lixões das grandes cidades.
Em caso extremos, são obrigados a trabalhar só por comida e impedidos de sair enquanto não terminarem o serviço. Para se ter uma idéia, no ano passado, crianças foram libertadas de uma fazenda de cacau no Pará. Uma delas, havia perdido um olho no trabalho.
Um olho… Evoluímos muito em questões de responsabilidade social, mas ainda são poucos as empresas e consumidores que se preocupam com isso. Por isso, cegos somos todos nós, da sociedade aos governos, que deixamos que fatos assim ainda aconteçam, consumindo loucamente sem se atentar que na origem de um chocolate, por exemplo, podem estar situações como essa.
*O nome foi trocado para garantir sua integridade."
Generalizar a corrupção = Justiça
Entre os inquéritos em andamento, está o que trata das 40 pessoas acusadas de envolvimento com o mensalão, esquema de compra de votos de parlamentares. Existem ainda duas ações penais contra o deputado Jader Barbalho (PMDB-PA), que é acusado de formação de quadrilha e desvio de verbas da antiga Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Os processos correm em segredo de Justiça.
Pela legislação em vigor, os deputados federais, senadores, ministros de Estado e o presidente da República, além de ministros de tribunais superiores e o procurador-geral da República têm direito ao foro privilegiado no STF. E os processos vão e voltam nas instâncias judiciais devido a isso."
Fonte: Agência Estado