
O sinal mal fica vermelho. Um, ou dois garotos começam a fazer malabarismos no meio da faixa de pedestres. Às vezes você nem presta atenção, ou até presta, mas cuidadosamente, para não ser pego pela criança, apreciando o seu trabalho, se não terá que ficar na obrigação de uns trocados. Logo, remexe o painel do carro, para ver se encontra algumas moedas - mas, isso quando se dá o trabalho de procurar.
Em uma noção cronometrada para que o sinal não abra, os meninos passam pelos carros numa tentativa de terem o seu trabalho reconhecido, comprarem comida, ou um tubo de cola - que algumas vezes, no pensamento deles, é indispensável para quem vive nas ruas.
Em uma noção cronometrada para que o sinal não abra, os meninos passam pelos carros numa tentativa de terem o seu trabalho reconhecido, comprarem comida, ou um tubo de cola - que algumas vezes, no pensamento deles, é indispensável para quem vive nas ruas.
Ok, mas e aí? Se eu tô falando que há grandes possibilidades de esses meninos comprarem drogas, o certo seria aproveitar o vidro levantado da janela do carro e ignorá-los, ou usar a velha desculpa: "Hoje tá difícil, fica pra próxima, beleza?" (Como se a vida deles já não fosse difícil o suficiente!)
Estou levantando essa questão, pois recentemente assisti o documentário Ônibus 174, de José Padilha. Durante 150 minutos, é reconstruída a trajetória de Sandro do Nascimento, que sequestrou o ônibus 174 em 12 de junho de 2000, e transformou a vida de todos os passageiros em um verdadeiro inferno.
O filme é excepcional, pois não romantiza o bandido, como no caso de Cidade de Deus, e muito menos, esculacha o crime, como o polêmico Tropa de Elite. O caso serve como reflexão para o filme, que vê todos os lados da história, construindo um triste reflexo da realidade da nossa sociedade em geral.
Foram utilizadas imagens do começo da ação dentro do ônibus, até a saída do sequestrados, feitas pela emissoras de televisão que cercavam o local; intercaladas com relatos de passageiros do ônibus, integrantes do BOPE (faca na caveira nesse dia...literalmente!), que participaram da ação, agentes sociais, familiares e amigos de rua de Sandro.
O ponto forte do documentário, foi a dinâmica de explorar todos os lados, mostrando a quem estiver assintindo que esse é um verdadeiro manual de funcionamento da questão social brasileira.
Eis que surge Sandro do Nascimento, mais uma vítima do descaso social, que poderia ser qualquer um desses garotos que foram citados no começo do texto. Aos seis anos, ele presenciou a mãe grávida ser morta a facadas por ladrões. Dois anos depois, fugiu da casa da tia e se tornou um menino de rua (a tia não insistiu em procurá-lo). Agora imaginem uma criança de oito anos enfrentando as dificuldades de morar na rua. è vidente que ele deve ter criado uma maturidade inevitável e desnecessária para a sua idade.
Eis que surge Sandro do Nascimento, mais uma vítima do descaso social, que poderia ser qualquer um desses garotos que foram citados no começo do texto. Aos seis anos, ele presenciou a mãe grávida ser morta a facadas por ladrões. Dois anos depois, fugiu da casa da tia e se tornou um menino de rua (a tia não insistiu em procurá-lo). Agora imaginem uma criança de oito anos enfrentando as dificuldades de morar na rua. è vidente que ele deve ter criado uma maturidade inevitável e desnecessária para a sua idade.
Em 1993, sobreviveu a chacina de meninos de rua, que dormiam em baixo das marquises da Igreja da Candelária. Viciou-se em drogas, e participou de assaltos para continuar cheirando pó. Chegou a ser internado em instituições para menores, como a Febem. Saindo de lá, foi adotado por uma mulher na favela Nova Holanda. Já maior de idade, chegou a ser preso, mas fugiu várias, e uma dessas fugas culminou no sequestro do ônibus da linha 174.
Detalhe, em um momento íntimo do filme, essa tardia mãe adotiva, que o abrigou na juventude, fala sobre o sonho de Sandro: ficar famoso. Não é possível justificar crimes como o de Sandro, nem falando das agressões que sofreu da sociedade. Mas é possível analisar a violência no contexto social em que ocorre, pois ele nunca teve oportunidades na vida, até ser adotado. Por isso, o diretor do filme afirma que a identidade deSandro estaria no reconhecimento de sua imagem pela mídia. A celebridade lhe daria cidadania. Deu-lhe a morte.