Por Leonardo Sakamoto
da ONG Repórter Brasil
"Cerqueiros perfuram o chão, plantando mourões e passando arame por quilômetros a fio sob o sol forte da Amazônia. O serviço é pesado: dependendo do relevo, a cabeça arde por dias até que se complete um quilômetro de cerca. O pequeno açude, turvo e sujo, serve para matar a sede, cozinhar e tomar banho.
Um perigo, pois a pele fica impregnada com o veneno borrifado para tratar o pasto. Dessa forma, a terra vai se dividindo – não entre os cerqueiros, que continuarão sonhando com o dia em que plantarão para si, mas em grandes pastos para os bois. Dentre eles, olhos claros e pele queimada, Jonas*, de 14 anos.
Analfabeto, conta que mora em uma favela na cidade com a família adotiva e vai ao campo para ganhar dinheiro. Foi dado de presente pela mãe aos três anos de idade e trabalha desde os 12 para poder comprar suas roupas, calçados, fortificantes e remédios – afinal de contas, já pegou uma dengue e cinco malárias.
Com o que ganha no serviço, também paga sorvetes e lanches para ele e seus amigos. E só. Segundo Jonas, a adolescência não é tão divertida assim: “brincadeira lá é muito pouca.”
Os direitos dos trabalhadores rurais freqüentemente são ignorados na chamada “fronteira agrícola”, onde a floresta amazônica perde espaço a cada dia para grandes fazendas. Péssimos alojamentos e alimentação, atraso ou não pagamento de salários e até privação de liberdade sob ameaça de morte acontecem com freqüência na região. Homens se tornam escravos do dia para a noite.
Para combater isso, grupos móveis de fiscalização do governo federal realizam vistorias de surpresa, aplicando multas e resgatando pessoas quando são constatadas irregularidades. Em um dezembro passado, uma dessas equipes encontrou Jonas e outros cerqueiros vivendo sob condições degradantes em uma fazenda, em Eldorado dos Carajás, Pará.
A lei é bem clara – nessa idade, permite ao jovem apenas a condição de aprendiz, em uma escola destinada a esse fim. O trabalho que ele realizava só seria permitido a partir de 18 anos e, ainda assim, sem as condições insalubres a que estavam expostos os cerqueiros.
Seu padrasto era um dos gatos da fazenda. Gato é como são chamados os contratadores de serviços, que arregimentam pessoas e fazem a ponte entre o empregador e os peões. Porém, isso não lhe garantiu nenhum tratamento especial: teve que descontar do salário a bota que usa para trabalhar.
O padrasto diz que não considera a venda do calçado para o próprio filho errado e justifica: “como vou sustentar a minha mulher?”
O alojamento que Jonas dividia com os outros era feito de algumas toras fincadas no chão, um pouco de palha e uma lona cobrindo tudo. O sol transformava a casa improvisada em forno, encurtando, assim, a hora do almoço. “Quando vocês chegaram a gente tinha acabado de sair. Não agüentamo a quentura da lona”, desabafa.
Redes fazem o papel de camas, penduradas aqui e ali para embalar, entre um dia e outro de trabalho, os sonhos das pessoas. O de Jonas, como vários outros rapazes da sua idade, é ser jogador de futebol.
Presença garantida nos times dos mais velhos, participa de jogos e campeonatos quando eles acontecem. Quer ser profissional, mas apesar de gostar dos times do Rio de Janeiro e de São Paulo, prefere ficar lá mesmo no Pará – quem, algum dia, vestindo as camisas do Paysandu ou do Remo.
Por nunca ter ganho na vida um presente de aniversário, não esperava que recebesse algo no Natal, mas pediria uma bola se Papai Noel resolvesse aparecer.
Centenas de crianças e jovens no Brasil abandonam a escola e trabalham desde cedo para ajudar as finanças em casa ou mesmo se sustentar. Muitas estão sujeitas a condições degradantes, como Jonas. Perdem dedos nas máquinas de apurar fibras de sisal, queimam braços e pernas nos fornos de carvoarias, catam latinhas de alumínio nos lixões das grandes cidades.
Em caso extremos, são obrigados a trabalhar só por comida e impedidos de sair enquanto não terminarem o serviço. Para se ter uma idéia, no ano passado, crianças foram libertadas de uma fazenda de cacau no Pará. Uma delas, havia perdido um olho no trabalho.
Um olho… Evoluímos muito em questões de responsabilidade social, mas ainda são poucos as empresas e consumidores que se preocupam com isso. Por isso, cegos somos todos nós, da sociedade aos governos, que deixamos que fatos assim ainda aconteçam, consumindo loucamente sem se atentar que na origem de um chocolate, por exemplo, podem estar situações como essa.
*O nome foi trocado para garantir sua integridade."
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