terça-feira, 6 de maio de 2008

O jornal de "um homem só"


Por Nathália Duarte
Redação Portal IMPRENSA (16/07/2007)


"Um jornal alternativo que completa 20 anos de existência em setembro deste ano, o Jornal Pessoal não dá retorno financeiro e não teve uma trajetória das mais fáceis. Idealizado pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto e criado no Pará, o veículo nasceu da necessidade de um espaço que não era dado pela grande imprensa.

O curioso é que nem mesmo Lúcio, seu idealizador, acreditava que o veículo duraria tanto tempo. Idealizador que, aliás, faz jus ao nome do jornal que criou: O jornalista é responsável sozinho pela redação, edição, distribuição e defesa jurídica do veículo.

Em entrevista ao Portal IMPRENSA, Lúcio Flávio Pinto conta a história do jornal independente que movimentou a cobertura de imprensa no nordeste e fala de suas expectativas e receios quanto ao futuro do jornal.

IMPRENSA - Como surgiu a idéia de fazer um jornal como o Jornal Pessoal e por que fazê-lo praticamente sozinho?

Lúcio Flávio Pinto -
Em setembro de 1987, eu tinha uma reportagem completa sobre o assassinato do ex-deputado estadual Paulo Fonteles, que demarcaria uma escalada de crimes de encomenda e políticos no Pará. Dizia tudo que naquele momento era possível saber. Inclusive que os dois homens considerados os mais ricos do Pará tinham alguma coisa a ver com o atentado. Só não tinha onde publicar a matéria (que, depois, viria a ser premiada com o Prêmio Fenaj, o primeiro dessa premiação de curta duração). Então criei um jornal para apresentá-la ao distinto público e tentar contribuir para que aquele crime não ficasse impune. Achava que o JP ia persistir por certo tempo e evaporar, como a regra desse tipo de publicação. Mas ele sobreviveu, inclusive à minha determinação de acabar com ele para que ele não acabasse comigo, o que esteve perto de acontecer ao longo dessa história. E o faço sozinho porque é o tamanho mínimo possível. Se pudesse escrevê-lo por psicografia, o faria. Como não sei desenhar, a ilustração e edição ficam com meu irmão, o Luís, o artista da família (que tem quatro jornalistas em sete irmãos). O resto é comigo. Eu grito fecha! E viro contínuo. Outro fecha! E me transformo em burocrata. Mais um fecha! E assumo a função de editor. Outro grito desse e me metamorfoseio em jornaleiro. E assim a Lusitana roda e o JP circula.

IMPRENSA - Como você mesmo citou, jornais alternativos não costumam durar muito tempo. O que você acha que garante, já há 20 anos, a sobrevivência do Jornal Pessoal?
Lúcio -
Depois de 21 anos com um pé na grande imprensa e outro em publicações alternativas, quando comecei a fazer o Jornal Pessoal estava convencido de que só há uma maneira de ser realmente independente: aceitar ser pobre. Assim, montei a estrutura mínima (um homem só) para suportar minha opção editorial: fazer um jornal sem publicidade. Desta vez, além de não alimentar ilusões sobre a adesão dos anúncios, eu simplesmente os recusei desde o início. Iria viver só da venda avulsa do jornal. Tinha certeza de que continuaria pobre, mas pelo menos estou chegando aos 20 anos.

IMPRENSA - Por que não aceitar publicidade?
Lúcio -
Quando fiz um jornal alternativo em bases convencionais (com equipe e publicidade), em 1975, eu vi que até mesmo agências não queriam programar o Bandeira 3, mesmo levando seus 20%, porque discordavam da linha editorial independente ou tinham receio dela, já que não podiam interferir nela. Eu tive que fazer as vezes de contato e batalhar para conseguir uns poucos anúncios, dados mais em função da relação pessoal. Isso era muito desgastante e sempre deixava um halo de ação entre amigos. Por isso decidi que o Jornal Pessoal teria que viver sem se submeter a esse desgaste porque sua linha editorial era clara: publicar tudo de importante, doesse a quem doesse. E o órgão do corpo humano que mais dói, conforme já estamos ficando carecas de saber, é o bolso. Disse Delfim neto pela boca de lorde Keynes."

Leia o resto da entrevista aqui!

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